Uma noite de chuva #04
Já era madrugada e olhando para os lados eu via todos dormindo. Gobber e Liza abraçados, Duwaine próximo à lareira, Laerte na latrina e o velho sarnento no outro canto próximo a cozinha. Todos repousavam cansados devido a tudo que havia acontecido. Uma morte, um nobre que fora buscar ajuda e demorava a retornar e um velho louco contando fatos que a pouco pareciam mentiras. Seriam verdade suas palavras? Estaríamos mesmos amaldiçoados? E Durt, filho de Armand, Líder do conselho dos Cinco e dos Cavaleiros do Manto Vermelho, estaria mesmo morto? Meus olhos pesavam. Todo aquele chá de hortelã deixava meu corpo mais mole e sonolento. Tentava resistir ao sono, mas meus olhos pesavam e não ficaria acordado por muito tempo.
Estava quase deixando cair o bandolim quando escutei um barulho vindo da cozinha. Olhei para os outros e o único que parecia ter se mexido era o velho que havia mudado sua posição de dormir, mas não estava acordado. Olhei para ele por mais alguns instantes e confirmei, estava dormindo. Fui em direção à cozinha e, próximo ao balcão, vi um rato saindo de lá. Normal, pois por algumas vezes Gobber já transformou a visita desses roedores em bebida grátis para quem o matasse. Continuei andando. Ainda escutava um barulho vindo da cozinha, mas não sabia o que era. Havia uma cortina tampando a entrada, e eu já estava dando a volta no balcão quando vi mais dois ratos saindo da cozinha. Dias de chuva eram complicados mesmo. Quando puxei a cortina de lado quase cai devido ao susto que levei. Centenas de ratos estavam saindo de um buraco que havia se formado na parede que dava para os fundos da taverna. Era o beco onde Gobber costuma jogar os restos de comida. O buraco era em parte no chão, em parte na parede e estava com as madeiras podres e muito mofadas. Água e ratos jorravam por aquele buraco e a cozinha se enchia de podridão rapidamente. Tentei voltar e caí. Bastou para ser mordido por um daqueles imprestáveis e nojentos ratos. Usei meu bandolim e o quebrei, matando alguns deles que estavam em mim, mas eles eram muitos.
- Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhh, acordem todos, vamos!
Disse isso me levantando e me apoiando na borda do balcão.

Gobber acordou com um salto e, vendo que aos seus pés já havia dezenas de roedores nojentos, pegou Liza no colo e disse:
- Não olhe para o chão querida.
De pouco adiantou. Ela ainda sonolenta, olhou para o chão. O suficiente para entrar em pânico e agarrar com todas as forças o pescoço de seu pai.
Neste momento eu devia decidir quem acordar primeiro. O velho louco ou Laerte? Laerte! Que se dane esse velho nojento, talvez os ratos nem o ataquem achando que ele também é um deles. Fui em direção à latrina, gritando e chacoalhando Laerte para acordá-lo.
- Vamos Laerte, acorde seu bêbado maluco, estamos sendo atacados por ratos imundos e cheios de doenças. Laerte! Vamos homem! Laerte?
Ele estava com as calças abaixadas, sentado e olhando para o teto. Os ratos já começavam a subir em seu corpo e ele não reagia. Seu toque estava gelado e devido a toda confusão, não havia percebido que de sua boca, um pequeno filete de sangue escorria até próximo do queixo. Merda! Ele também estava morto.
Os gritos de Liza tentavam ser acalmados por Gobber e faziam com que não me escutassem. Tentava dizer que mais ratos saiam da cozinha e que duas grandes ratazanas quase do tamanho de cachorros haviam ido em direção a parte principal da taverna. Foi quando eu escutei Duwaine gritando mais alto que todos.
- Eu sei do que esses malditos têm medo. Morram imundos, morram com o fogo de Lathander.
Cheguei a tempo de vê-lo jogando dois frascos que tinha em sua mochila. Dirigiu-se até a lareira e com um pouco de esforço e suportando a queimadura, pegou um pedaço de madeira em brasa. Então gritou:
- Morram com o fogo de Lathander! Pouco adiantou gritarmos. Ele atirou o pedaço de madeira em direção as mesas e por instantes nada aconteceu. Cheguei a suspirar de alivio, mas quando virei meus olhos para aquele estúpido, o fogo surgiu no meio da taverna e a onda de calor nos jogou para trás. Os ratos acuados não tinham para onde ir e corriam malucos para todos os lados. Duwaine gritava louco o nome de Lathander enquanto era derrubado por uma leva de roedores, acuados pelo fogo. Não demorou muito para ele cair e ser acobertado por eles. Gobber subiu com Liza em uma mesa, para tentar protegê-la. Fiz o mesmo subindo no balcão e, no segundo seguinte, comecei a procurar pelo velho. No local onde ele estava apenas fogo e ratos mortos, mas um momento depois, o vi caindo do teto silenciosamente atrás de Gobber que nada escutou. Em suas mãos, duas adagas brilhantes: uma apontada para as costas e a outra para o pescoço.
- Gobber cuidado com o velho!
De nada adiantou. No momento em que gritei, a primeira adaga entrou nas costas de Gobber fazendo-o perder os sentidos e soltar a pequena Liza. Seu corpo desfalecido rolou pela mesa, enquanto o velho com a outra mão segurava a menina, já colocando a adaga em seu pescoço. Gobber estava morto. Liza gritava, até que o velho sussurrou algo em seu ouvido que a fez engolir o choro. Ele olhou para mim e sorriu sadicamente. Apontou a adaga em minha direção disse:

- Bardo, a única que necessito é que esteja viva a pequena chave aqui, Liza. Dê-me um bom motivo para continuar vivo e que seja rápido, seu miserável!
Postado por The Tick dia 10/03/2010
TAGS: contos ,rpg ,forgotten realms ,ratos
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